Moradores fazem vigília contra constrangimento de mulheres no Pérola Byington

Tenda foi montada ao lado do grupo religioso “40 dias pela vida”, acusado de agredir uma mulher vítima de estupro

 Por Bruna Caetano

Pessoas que moram na vizinhança do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, decidiram montar uma vigília em defesa de mulheres que procuram a instituição para fazer o aborto legal – e que estavam sendo vítimas de constrangimento e agressões por parte de um grupo religioso.

O Pérola Byinton é referência no atendimento à mulher, e tem entre suas especialidades a assistência às vítimas de estupro, casos em que o aborto é permito por lei.

No dia 25 de setembro, o grupo “40 dias pela vida” montou uma tenda na frente do hospital e desde então está abordando as pacientes e os profissionais de saúde.

Segundo denúncia da Agência Pública, em 21 de outubro uma mulher vítima de violência sexual foi ao hospital para uma consulta psiquiátrica, e se deparou com a tenda, que chama atenção pelas mensagens contrárias ao aborto, fotos de bebês, imagens católicas e miniaturas de fetos.

A mulher decidiu contar sua história aos manifestantes (um estupro ocorrido no Rio de Janeiro), mas foi interrompida por uma das responsáveis pela tenda, que começou a xingá-la, e depois imobilizada por um homem com um mata-leão, enquanto outra lhe agredia. Ela registrou boletim de ocorrência por lesão corporal.

O caso revoltou a escritora Daniela Neves, que decidiu para fazer o contrário: se solidarizar com as pacientes. “Pensei: deve ter algum jeito de fazer alguma coisa”, disse ela, que mora a duas quadras e meia do hospital.

No sábado (26), Daniela montou uma barraca no mesmo espaço ocupado pelo grupo religioso, mas a Polícia apareceu e ela teve de mudar de lugar. Aos poucos, outras pessoas, a maioria moradores da região, foram se juntando à iniciativa da escritora.

“Os moradores vêm conversar com a gente, todo mundo parando. Hoje a barraca foi montada por um morador que conheci ontem à noite. Ele passou aqui com a esposa e perguntou se podia fazer alguma coisa”, conta.

A presença da tenda de Daniela fez com que o grupo “40 dias pela vida” deixasse de abordar as pessoas na rua. “Eles estão bastante constrangidos. Quando eles não estão rezando, eles estão exatamente como você tá vendo. Duas ou três pessoas, dentro da barraca fechada, e eles não se comunicam com ninguém”, diz.

Daniela lembra que o debate não é só sobre o aborto. “Somos um grupo que se colocou na praça Pérola Byington para evitar que mulheres que sofreram violência ou muito doentes fossem assediadas. Um grupo que se postou na praça para evitar que profissionais de saúde fossem xingados de assassinos. É o básico. Aqui a gente está falando de humanidade, de lei”.

No sábado, quando o acampamento do grupo religioso completa os 40 dias, eles farão a oração de mil ave-marias pelo fim do aborto e depois deixaram o local.

Em resposta, a vigília realizará um evento para a comunidade local e para o hospital. A praça deve receber barbeiros e cabeleireiros para as pessoas em situação de rua, e uma atividade com a artista plástica Luana Marçon, chamada “Pano de Chão”, onde as pessoas são incentivadas se expressar em um pano estendido. Também está prevista a participação de músicos.

Os voluntários devem organizar ainda uma campanha de financiamento coletivo para ajudar as 17 pessoas em situação de rua que ocupam a praça.

40 dias pela vida

O “pró-vida” é filial de um grupo internacional com o mesmo nome em inglês e que atua em 61 países, como mostra o mapa no site oficial. O grupo surgiu em resposta à criação de um centro de promoção de aborto em College Station, no Texas.

Com o lema “o começo do fim do aborto”, ostentam com orgulho a marca de 140 centros de aborto fechados e 191 desistências de profissionais. “Ajude a salvar vidas rezando pelo fim do aborto na sua comunidade”, diz o site.

Uma das militantes mais engajadas é Celene Salomão de Carvalho. Tentou ser candidata à deputada federal pelo PSL de São Paulo, mas sua candidatura foi indeferida pela Justiça Eleitoral por não estar devidamente filiada ao partido. Ainda assim, teria recebido R$ 10 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha.

Celene ainda foi uma das ativistas responsáveis pelos atos que hostilizaram a filósofa Judith Butler em sua vinda ao Brasil, em 2017. Além disso, participou de um ato que insultava Eduardo Suplicy na Livraria Cultura em São Paulo, em 2015.

Na página do Facebook, “40 dias pela vida SP”, o grupo posa em fotos ao lado de Bia Dória, primeira dama de São Paulo, que visitou a tenda no dia 24.

Gentileza Brasil de Fato