Oposição alimenta tensões na Bolívia em relação ao processo eleitoral

Enfrentamentos ocorreram nos locais de apuração nacional e regional de La Paz

Por Florence Poznanski

Na capital do país, manifestantes de duas tendências políticas se concentram em frente aos locais de contagem de votos - Créditos: Foto: Florence Poznanski
Na capital do país, manifestantes de duas tendências políticas se concentram em frente aos locais de contagem de votos / Foto: Florence Poznanski

La Paz amanheceu com uma situação de incerteza na segunda-feira (21). Na noite anterior, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) da Bolívia tinha suspendido a transmissão dos resultados preliminares (TREP) aos 83% de urnas apuradas, que davam 45,3% dos votos para o atual presidente do país, Evo Morales, do Movimento Ao Socialismo (MAS). O seu principal opositor, Carlos Mesa, do movimento Comunidade Cidadã (CC), registrava 38,2%. Com esse quadro, ocorreria um segundo turno, já que não há diferença de dez pontos entre os candidatos, mas ainda faltava a apuração de votos que poderiam reverter esse cenário. O grau de incerteza, levou a um acirramento dos ânimos e ataques por parte da oposição.

Em seu discurso domingo à noite, Evo Morales já previa uma vitória, contando ainda com os votos das zonas rurais, tradicionalmente mais favoráveis ao MAS, que estavam por ser computados. Com isso, manifestantes do movimento Comunidade Cidadã, determinados em disputar o segundo turno, se reuniram em frente aos locais de apuração para denunciar o que eles consideram ser uma fraude. 

A manifestação ocorreu de forma pacifica até o início da noite, mas confrontos entre militantes do CC e do MAS acabaram gerando intervenções policiais. O reitor da Universidade Maior de San Andrés (UMSA), Waldo Albarracín, principal faculdade pública do país, que tomou abertamente posição contra a candidatura de Morales, acabou sendo ferido por gazes enquanto tentava forçar uma barreira policial. 

No início da noite da segunda-feira, 22 horas depois do início da apuração, o TSE liberou novamente a transmissão dos resultados. Subindo e descendo a diferença de votos entre os dois principais candidatos, em algum momento o resultado mostrava uma diferença de 10,14%

Os últimos resultados desse dia, com 95% das urnas apuradas, a diferença era de 9,33%, sendo 46,40% para Morales e 37,07% para Mesa. A evolução pode se explicar pela chegada tardia dos resultados vindo do exterior e do interior do país, onde há maior quantidade de eleitores favoráveis ao atual presidente.

Já a contagem manual, segundo sistema de apuração, ainda está pela metade, o que faz com que não haja um resultado definitivo ainda. 

O atraso e a mudança de quadro de domingo para segunda suscitaram a reação da Organização dos Estados Americanos (OEA), que publicou em comunicado sua “profunda preocupação” com o cenário do país, considerando que os resultados de domingo apresentavam um segundo turno. Observadores internacionais explicaram não entender porque o TREP tinha sido suspenso durante um período. 

A presidenta do TSE, María Eugenia Choque, manifestou publicamente na segunda-feira que o processo foi suspenso para não conflituar com as duas apurações simultâneas.

O cenário de conflito manifesto nas últimas declarações, no entanto, já estava sinalizado por parte da oposição. Antes mesmo das eleições, o candidato do CC, Carlos Mesa, tinha anunciado que contestaria o resultado caso Morales ganhasse no primeiro turno.

A narrativa de fraude eleitoral é usada como pano de fundo para as manifestações da oposição, mas ainda é incerto o cenário que de enfrentamento que será provocado e como ocorrerá a finalização do processo eleitoral, se para um quadro de violência ou para um contexto pacifico e democrático. 

Gentileza Brasil de Fato