OS BRASIS DE SEBASTIANA E ISABELLA: DUAS GERAÇÕES DE MULHERES QUE RESISTEM AO RACISMO

No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, conheça histórias marcadas pela luta contra a discriminação

Por Rute Pina

Anos 1910

Quando Sebastiana Neves Satil nasceu, a abolição da escravidão no Brasil ainda não havia completado nem três décadas — só havia 28 anos desde a assinatura da Lei Áurea que encerrou, em tese, um ciclo de segregação racial no país. Mulher negra de pele retinta, ela atravessaria um século de mudanças.

Prestes a completar 103 anos, dona Sebastiana não se exime de viver novas experiências como, por exemplo, andar pela primeira vez de avião. Na viagem para Goiânia (GO) em 2016, ela fez questão de conhecer a cabine e toda a tripulação.

A vontade de estar em novos lugares pode ser explicada, em parte, por uma impossibilidade que se fez presente por muitos anos. Nascida em Ituiutaba, uma pequena cidade no pontal do triângulo mineiro, as memórias da juventude de Sebastiana que mais ecoam, até hoje, são de segregação.

“Antigamente, preto aqui era muito escorraçado”, ela inicia seu relato ao Brasil de Fato, pelo telefone. “Se a gente ia na igreja não podia ficar do lado dos ricos. Tinha lado a igreja. A gente ficava todos [negros] de um lado e os ricos do outro. Era assim”, lembra.

“Se a gente chegasse em um lugar que tivesse elevador, a gente só podia subir no elevador de serviço. Se o de serviço tivesse ocupado, tinha que subir de escada. No outro não tinha ninguém para subir, mas ainda assim não poderia subir porque a gente era preto.”

Sebastiana nasceu 27 de julho de 1916. Começou a trabalhar ainda criança, aos 9 anos, como empregada doméstica, na mesma fazenda onde seu pai trabalhava. E ela recorda que as trabalhadoras deveriam evitar os mesmos ambientes dos patrões, se elas não estivessem servindo.

“Quando eles estavam conversando, não podia nem falar que estava morrendo ou um ‘ai’, eles não deixavam”, conta. “Ninguém era chamado por nome. Enquanto eles estavam almoçando ou jantando, era uma campainha que botavam na mesa. Batia a campainha e empregada ia atender o que que era, o porquê a patroa tava chamando.”

Ela conta que muitos trabalhavam sem ganhar dinheiro, só para comer. “Escravidão acabou, mas a gente vê que ainda tem muita gente por escravo. Muito preconceito. Muita diferença.”

CLUBE DE RESISTÊNCIA

Com espaços tão segregados, Sebastiana diz que se revoltava com a falta lugares de convivência e de lazer para a comunidade negra. “A cidade era pequena. Não podia ir ao cinema porque era só de branco. A gente não podia nada, era uma cidade bem atrasada.”

“Eu fiquei com raiva daquilo, me juntei com um pessoal e fundei um clube. E o prefeito arranjou um lugar afastado onde não tinha nada. Um lugar sujo. Meu pai e meu primo tiraram a sujeira e eu pedia ao pessoal para me ajudar. E eu fiz um clube lá na minha terra para gente ter onde se divertir.”

O lugar em questão é o Clube Palmeira, fundado em 1938 e que existe até hoje em Ituiutaba (MG).

A fundadora conta que, no decorrer dos anos, o local foi alvo de denúncias. “Eu me sacrifiquei para ter esse lugar para a gente se divertir, depois que a gente melhorou, disseram que a gente fazia barulho, que ficava cantando, tocando instrumento e povo não dormia”, lembra.

Depois das denúncias, a Prefeitura cedeu um terreno para a inauguração oficial do clube, em 1945. Atualmente, o espaço físico da entidade está interditado por conta de uma ação judicial movida pelo Ministério Público do estado, com a acusação de “poluição sonora”. Integrantes da diretoria do clube tentam retomar as atividades do local com o apoio da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares.

VIDA CARIOCA

Mas esse capítulo do clube Sebastiana não chegou a participar, pois se mudou para o Rio de Janeiro em 1941. Na capital carioca, onde passou a maior parte de sua vida e vive até hoje, Sebastiana trabalhou para uma família na rua Martim Ferreira, em Botafogo.

E mesmo agora em maiores centros urbanos do país, o racismo, ao contrário do que pensava, não era atenuado. Ela lembra de levar os filhos das patroas em festas de aniversário e ter que ficar do lado de fora esperando. “As meninas entravam e eu ficava do lado de fora, para eles não saberem que tinha empregada lá”, relata.

Sebastiana trabalhou como doméstica até os 30 anos, quando casou com Alceu Satil, um servidor público, e passou a se dedicar ao lar. Observando calçadas, muros e ruas de pedras da grande cidade, dona Sebastiana enxerga o registro trabalho forçado dos negros, que estão em cada canto do Rio de Janeiro.

“Veio muito escravo da África, que eles mandavam buscar para trabalhar aqui. O trabalho dos escravos… calçamento, carregamento de pedra. No dia que você vier aqui, eu não tô podendo porque já tô velha, mas vou mandar a Célia te mostrar muita coisa que os escravos faziam.”

Fotógrafa e designer, Célia Satil é a filha de Sebastiana. E uma coisa que emociona a mãe é ver onde suas filhas conseguiram chegar. Cármen, que faleceu aos 50 anos após um acidente vascular cerebral (AVC), se formou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Já Célia, que acompanha a mãe em cada passo, é formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e tem pós-graduação pela Universidade Cândido Mendes (UCAM). “Até hoje, eu fico boba ainda quando eu vejo o serviço, uma reunião dela… Eu nem fico satisfeita, fico maluca”, diz com orgulho que pulsa na voz.

Sebastiana não teve a oportunidade de estudar: “Eu não tenho instrução, não. Nenhuma. Meus pais eram pobres, moravam na roça. Eu não estudei a não ser assinar meu nome. Mas eu tenho muita inteligência porque meu pai era muito inteligente.”

Em um século de vida, outra coisa que sensibiliza a mineira é pisar em espaços que jamais imaginaria. Há três anos, o clube Fluminense foi um deles. Em 2016, ela participou em uma festa do aniversário do Sindicato dos Engenheiros (Senge-RJ), em que ela entrou pelo hall principal do salão nobre. “Eles não deixavam eu entrar nem na porta, agora estou dentro do clube, andando, como se fosse uma madame”, brinca.

ANOS 2000

As marcas do racismo e do preconceito no Brasil ultrapassam gerações e as mulheres negras ainda enfrentam inúmeros desafios. Noventa anos separam o nascimento de Dona Sebastiana da menina Isabella Nicoly Cerqueira Trindade, de 12 anos.

O filme favorito de Isabella é Felicidade por um fio. “Você não conhece?”, ela me pergunta com surpresa. A menina, então, conta animada o enredo: uma mulher negra, que desde a infância ouviu os mais diversos insultos, começa a trilhar uma trajetória de aceitação de seu cabelo.

“Ela cresceu com a mãe falando que ela tinha que alisar o cabelo porque meninas bonitas tinham o cabelo liso”, relata. “Um dia ela se libertou e raspou o cabelo. Ela teve olhares negativos, mas ela se sentiu mais firme, melhor e empoderada.”

Isabella tem vocabulário que impressiona para a idade. E a escolha do filme preferido — um longa estadunidense lançado em 2018 — também diz muito sobre sua própria história: há um ano, menina está à frente da coordenação do grupo Naturalmente Cacheadas, na Escola Estadual Prof. Leila Mara Avelino, em Sumaré (SP).

O coletivo foi criado em 2017 e teve início porque meninas entre 10 e 13 anos estavam começando, muito cedo, a alisar seus cabelos cacheados ou crespos.

Foi então que um grupo de alunas negras aplicou uma pesquisa com 317 estudantes do colégio. Deles, 48% afirmavam já ter feito piadas sobre o cabelo das colegas, e 30% das alunas declararam ter sido vítima desses comentários ofensivos.

O projeto “Cabelo, autoestima e construção da identidade da menina negra” recebeu 4ª edição do Desafio Criativos da Escola e também foi reconhecido no Ceará.

Quando Isabella foi transferida para a escola e teve contato com o projeto, que percebeu que não estava só. No colégio anterior, uma instituição particular onde era a única menina negra da sala e se sentia excluída.

“Comigo não foram várias vezes, mas já aconteceu de alguém falar do meu cabelo, da minha pele. Foram algumas vezes, mas eu abaixei a cabeça pra isso e chorei. Então, eu me arrependo, porque eu poderia ter erguido minha cabeça e não ter chorado, porque eu sentiria que teria sido melhor pra mim, sabe?”, diz.

Palavras depreciativas ou ofensivas referente à raça ou cor estão presentes nas escolas e universidades. Em 2018, foi registrado um caso de injúria racial a cada cinco dias em estabelecimentos de ensino fundamental, médio e superior do estado, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo.

Isabella lamenta que a escola só atende até o ensino fundamental. E, por enquanto, não quer nem pensar que vai ter que escola. “Eu fiquei maravilhada com que elas faziam lá, com os assuntos [questões raciais]. E com a ideia mesmo que elas tiveram. Eu nunca imaginei que eu ia chegar numa escola que, tipo, ia ter tanta representatividade da mulher negra. E eu fiquei muito feliz com isso.”

E comenta a diferença que isso fez para sua vida. “Eu me sinto melhor, sabe? Eu sinto que eu não estou sozinha. Que se eu chorar, vai ter alguém para me apoiar. E se eu sofrer, se alguém falar mal do meu cabelo, da minha cor, eu sei que não sou a única e que as meninas estão lá e elas vão me ajudar”, diz a pré-adolescente, com a voz embargada e os olhos marejados.

Na escola, suas matérias preferidas são português, artes e uma disciplina chamada Projeto de Vida, voltada a projetos educativos interdisciplinares e que pensem no futuro. Isabella, por exemplo, quer ser pediatra. “Se eu sonhar, um dia chega”, sorri.

REPRESENTATIVIDADE QUE IMPORTA

O grupo Naturalmente Cacheadas é resultado de um contexto de profusão das discussões sobre representatividade. O clube juvenil está dentro da grade da escola e as alunas se reúnem toda segunda-feira, quando também compartilham o que aprenderam sobre esse assunto com outros estudantes.

“A gente fala, principalmente, sobre a aceitação, o empoderamento e a autoestima”, conta a garota de 12 anos, que já enxerga frutos do projeto com meninas da escola. Elas estão assumindo seus cabelos cacheados e crespos, é incrível!”

Neste contexto que Isabella aprendeu palavras que ela hoje dá a definição sem titubear, por exemplo: “Empoderamento vem muito da autoaceitação. Se você não se aceitar, como você é, você não vai ter empoderamento, sabe? Se você se achar feia, como você vai ser empoderada? O empoderamento é você ser forte, saber que você é capaz. Que você consegue e chega lá.”

Além do filme favorito, protagonizado por uma atriz negra, a menina cita cantores negros como Bruno Mars e Pharrell Williams como seus preferidos. Mas, mesmo com a ampliação de referências para população negra se enxergar em produtos, palcos e telas, ainda há grande caminho a ser trilhado.

Na indústria cinematográfica, por exemplo. Uma análise da Agência Nacional do Cinema, publicada no ano passado, mostrou que o cinema comercial brasileiro é quase totalmente dirigido por homens brancos.

De 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no ano de 2016, 97,2% foram dirigidos por pessoas brancas. As mulheres comandaram 19,7% dos filmes e os homens negros apenas 2,1%. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

Já um levantamento da campanha “Cadê Nossa Boneca?”, realizado pela ONG Avante em março do ano passado, apontou que apenas 7% das bonecas fabricadas no Brasil são negras. Do total dos 762 modelos produzidos pelos fabricantes associados à Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos, apenas 53 eram pretos.

Hoje, Isabella já não brinca mais com bonecas e prefere jogar bets e esconde-esconde na rua com as primas e amigas. Mas se lembra de uma boneca especificamente: “Minha mãe buscava sempre me dar apoio para que eu não abaixasse a cabeça, mas eu sempre ganhei bonecas brancas de outras pessoas. Mas eu nunca gostei muito de boneca assim… Mas eu tinha uma que era muito bonita. Ela era negra e tinha outra bonequinha que vinha junto. Ai, ela era tão linda”, lembra com um suspiro.

O que aconteceu com a boneca? Isabella conta que foi doada. E não lembra para quem. Mas espera que tenha sido doada para outra menina negra, que possa se enxergar em espaços assim como ela se encontrou.

Ficha Técnica Reportagem: Rute Pina | Edição de texto e áudio:Anelize Moreira | Sonoplastia: André Paroche | Dados: Pamela Oliveira | Artes:Gabi Lucena | Fotos: Arquivo Pessoal Célia Satil | Coordenação de Jornalismo: Vivian Fernandes e Daniel Giovanaz | Coordenação de Multimídia: José Bruno Lima | Coordenação de Rádio: Camila Salmazio

Gentileza: Brasil de Fato