Os enredos da atual pseudo-democracia.

por Nicolas Sampedro *

A jornalista, pesquisadora e ativista, Stella Calloni, refletia em uma recente entrevista publicada na Misión   Verdad, sobre as novas formas de interferência dos EUA na  política dos países da Nossa  América, e a necessidade urgente de se sentar para  pensar como antecipar tais políticas para sair do lugar de submissão aos desígnios imperiais.

 

Calloni fala da ” Democracias de Segurança Nacional “, em clara referência à Doutrina de Segurança Nacional implementada pelos EUA durante os anos 70 pelas várias ditaduras militares do Cone Sul, o Plano Colômbia e o Plano Mérida, entre outras intervenções políticas.

 

Como ja tem sido mencionado neste espaço em programas anteriores, a formação hoje não é militar na Escola das Américas, mas “escolas juízes e A Academia Internacional para a Aplicação da Lei foram em El Salvador com os mesmos critérios de recrutamento e formação de agentes da lei e de policiais”.

Este é um dos pilares para a compreensão dos processos de desestabilização judicial ou “lawfare” dos quais sao  vítimas os ex-presidentes Lula da Silva, Cristina Fernández de Kirchner, Rafael Correa e Gustavo Petro, como reflete o sociólogo e cientista político brasileiro, coordenador do Laboratório de Políticas públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Emir Sader. Algo similar com  o que aconteceu (e com sucesso testável), com Mel Zelaya, Fernando Lugo e Dilma Rousseff, anteriormente.

 

Inclusive se darmos  atenção nas recentes eleições no Brasil, o juiz Sergio Moro ordena  aprisionar Lula sem um pingo de provas contra ele, mas “com firme convicção”, que foi responsável daquilo pqlo que era  acusado, principalmente na imprensa, porque legalmente não havia NADA.

A vitória de Bolsonaro, assim como  a de Donald Trump nos EUA, representa o segundo grande pilar desta confusão: a gestão das redes sociais digitais. Tanto o Facebook, o Twitter,o  Instagram e neste caso também WhatsApp (propriedade do Facebook), serviu para conduzir uma campanha de difamação sem precedentes- contra o candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad.

Não é por acaso que o discurso reacionário de Bolsonaro tenha colado em grandes setores da população brasileira.

De acordo com Sally Burch, jornalista britânico-equatoriana e diretora executiva da  Agência Latino-americana de Informação, “as emoções negativas levam a tendências de ação mais fortes do que a linha emoções positivas; portanto, certos algoritmos acabam dando prioridade a  esses conteúdos que causam reações de raiva ou ódio no usuário. Além disso, quando um usuário mostra interesse em conteúdos com posições políticas e sociais extremas, o algoritmo oferece novos conteúdos ainda mais extremos.

Assim, estes sistemas contribuem para radicalizar posições e aguçar os antagonismos existentes na sociedade, a tal ponto que, no contexto do conflito forte, vêm a catalisar a ação coletiva (offline) de  violência física e até mesmo casos de linchamento. Como resultado, o espaço para o debate político e confronto de idéias se estreita  a respeito  de  programas, teses e a busca de consensos mínimo entre pontos de vista divergentes que são essenciais para a convivência democrática”

 

Desta informação / declaração pode se inferir  que: as redes não são apenas uma arma de desinformação, que vão segmentar diferentes grupos pelo  interesse, mas também reforçam as contradições e divisão social. A decomposição social, o  diálogo inexistente e consenso mínimo, a deslegitimação da política como um instrumento de transformação e do Estado como regulador da sociedade, entre outros.

Na Argentina isto mesmo pode ser visto com as equipes dos  Trolls de  Peña Brown bombardeados com redes de Fakes news , estigmatizando àqueles que enfrentam as decisões do governo de Cambiemos, com a cumplicidade da mídia claro que há anos vem estigmatizando aos setores populares, sindicatos, coletivos feministas e as expressões políticas de oposição ao macrismo, que é o kirchnerismo.

 

O  Colega Mariano Molina, disse em um artigo publicado recentemente na Agencia Paco  Urondo “é tempo, então, uma vez, mais uma vez de esclarecer que a identidade e a representação política não concede auto-definição individual ou coletiva, mas a percepção de sociedade e consideração que tem o inimigo. Assim, não serve de nada definir-se de tao ou qual  ideologia se  toda a sociedade e o inimigo não o  valorizam como tal. Algumas pessoas pensam que os governos populares nas últimas décadas são puro enfeite, porém essa valorização perde valor frente  aos inimigos que têm e tiveram essas experiências. Quando grandes corporações econômicas e os interesses do Departamento de Estado estimam  que o PT, Kirchner, Chávez, do Uruguai Frente Amplio, o MAS boliviano ou correismo como seus inimigos reais, qualquer outra discussão é puro desleixo.

 

” O terceiro elo nessa cadeia de ferramentas do  imperio para controlar os processos políticos na região, pode ver-se em  dois fenómenos diferentes, mas atingem  o mesmo objetivo: igrejas evangélicas pentecostais e ONGs.

Ambas as expressões têm como  tarefa a impossíbilidade de  que as organizações populares cresçam, se reproduzam e acumulem  poder territorial. As  Igrejas ligadas controle remoto para acumular força nos setores de baixa renda populares, vendendo a falsa ilusão de que Deus pode fazer tudo e que só com evangelizar às pessoas, se poderá sair das garras do diabo (Coloque-lhe o nome de qualquer um deles ex-presidentes antes mencionades). Não é por acaso que tanto Heidi Vidal como Mameluco Olmedo (entre outros) sairam na procura destas  , dada a grande  eficácia mostrada no Brasil.

 

O que  preocupa com este cenário é que as igrejas evangélicas na Argentina, não só se reproduziram  com uma velocidade espantosa, cooptou grande parte da população das prisões  (não apenas aqueles que estão privados de sua liberdade, mas também um número significativo de tropas do sistema de penitenciaria ) e que já têm os seus próprios exércitos. Recentemente foi visto em um vídeo nas redes onde se vangloriar de tal façanha.

Neste contexto, as declarações do ministro da Segurança Patricia Bullrich, cobram ainda mais relevância e tornam-se mais perigosas. “Quem quiser andar armado, que ande armado; que não quiser armado,que não ande  armado. Argentina é um país livre. ”

Não é apenas irresponsável porque de acordo com a nossa legislação não pode levar nenhuma arma, mas porque é estatisticamente comprovado que o aumento de armas nas ruas aumento dos níveis de assassinatos, mortes ou massacres como acontece nos EUA.

As  ONGs, por outro lado, apontam  para classe média fazendo assistência social (voluntariado) e acabam por lavar suas culpas sem se envolver em um processo de organização que busca a transformação real do status quo e  das realidades de nossos povos. Apareceram Caritas, Techo para mi país  , ao tempo que  florescem expressões como Poder Ciudadano (da qual emergiu  Laurita Alonso, agora a cargo da Agência Anti-Corrupção), onde se denunciaram casos de corrupção dirigidos ao  único efeito  de que a mídia e os órgãos judiciais tenham  elementos para operar na realidade política do país.

.A este respeito, Stella Calloni historizava e refletia  sobre isso dizendo que as ONGs “silenciosamente invadiram a América Latina nos anos 80 e já para 2000 se  reproduziram  por mil, abrindo o caminho para o projeto geoestratégico dos EUA de recolonização da região.

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“. Como pode se observar, o panorama qu  está chegando não é apenas complexo de analisar, mas também para atacar. Como Calloni argumenta, os povos da Nossa América nos  devemos uma profunda reflexão para agir contra esses mecanismos já instalados em nossas sociedades que deve necessariamente partir de algumas apreciações que realizava recentemente, o vice-presidente boliviano Alvaro Garcia Linera.

Linera enumera cinco considerações das derrotas que sofrearm  os  processos populares na região:

1- POde-se fazer qualquer concessão, pode-se conversar com quem qualquer que permita o crescimento econômico, mas garantindo sempre o poder político nas mãos dos trabalhadores e os revolucionários. E nao se pode  tomar medidas que afetem o bloco revolucionário, fortalecendo o bloco conservador.

2- Se a expansão da capacidade de consumo, que amplia a capacidade da justiça social não for acompanhada de politização social, não estão fazendo o bom senso. Nós criamos uma nova classe média, com capacidade de consumo, com capacidade de satisfação, mas carrega o antigo conservador do senso comum.

3- A fraca reforma moral. A corrupção característica do capitalismo e os neoliberais, acabam sendo a sua bandeira contra os nossos governos.

4 A impossibilidade de continuidade das lideranças  produto de armadilhas demo-liberais.

5- A fraca integração conjunta e comercial, econômica e produtiva real.

Este artigo conclui citando novamente o colega Mariano Molina: “Os tempos em que vivemos são trágicas e de uma gravidade que ainda nao conseguimos dimensionamento. A esse inimigo (ou aqueles inimigos poderosos) deve apontar-se as armas das forças populares, de esquerda e progressistas. Tudo o resto é forca desperdiçada ou cúmplice do fascismo que dá chicotadas em uma versão modernizada. Em jogo está um modo de vida e liberdade e a participação política, como todos sabemos (e sofremos) no nosso país desde 10 de Dezembro de 2015. Nao sao momentos de debate abstrato, porque se arriscam  formas de sobreviver para voltar a gerar opções políticas que nos permitam uma vida melhor”.

 

Bibliografía
https://www.alainet.org/es/articulo/196305
https://www.alainet.org/es/articulo/196275
http://misionverdad.com/columnistas/stella-calloni-la-democracia-de-seguridad-nacional-es-el-nuevo-formato-de-intervencion
https://www.alainet.org/es/articulo/19627

*Programa La Marea. Sexta-feira, de 17 a 19 hs. Radio Futura (FM 90.5).