Os think tanks e Jair Bolsonaro: capitalismo e representação

Por Amílcar Salas Oroño

Toda luta política também é uma luta interpretativa, isto é, uma luta pela definição dos termos a partir dos que se diagnosticam e descrevem as caraterísticas de uma sociedade e , ao  mesmo tempo as prioridades e os caminhos eventuais que podem  ser mobilizados para sua modificação, seja em um sentido progressivo ou restaurador. Que estejam  colocadas umas palavras e não outras nos imaginários políticos faz parte dessa luta interpretativa. Certo é que em um país como o Brasil, de dimensão  continental, existe uma superposição de imaginários políticos e sociais segundo as regiões, segundo a diferente densidade da população, as sub-culturas históricas, as gírias lingüísticas e os níveis de desenvolvimento.

Neste sentido há que compreender a relevância de uma disputa presidencial: trata-se de um momento singular de auscultação coletiva, de conhecimento  sobre as deficiências, dramas e potencialidades do país –dadas as atuais possibilidades técnicas para arrecadar informação– que se organizam como discurso e interpretação, segundo os pontos de vista dos diferentes candidatos. As sociedades se vão conhecendo a si mesmas em cada uma das eleições, e confirmando ou não -porque há tendências globais que têm outra direção- sua constituição como entidade nacional.

Acontece que nesse momento de visibilização e auto-conhecimento se definem também as características do modo no qual se continuará, quem governará, qual  candidato se  vai impor e que  interpretações do país se assumirão como legítimas para a autoridade política.

Dai provém a preocupação com Jair Bolsonaro e as suas posições  discursivas. Sobre um terreno devastado pelas linguagens circulantes, tanto pela superposição de plataformas e médios, a metamorfose nos  processos de incorporação de informação, a perda de certezas sobre a veracidade daquilo que se constrói como dado–e  esta tem sido  campanha das fake news por excelência- Jair Bolsonaro empurra o processo histórico brasileiro numa  direção que  , também, pode verificar-se noutras  latitudes: a diminuição de conteúdo estritamente ‘liberal’ dos regimes democráticos, com regressões no que respeita às arquiteturas institucionais e às culturas políticas derivadas de uma extensão dos direitos (civis, políticos, sociais, identitários), com gestos de forca às violências micro-sociais (como têm acontecido nestes dias), de perseguição às diferenças.

Ao mesmo tempo, as ‘interpretações’ do candidato preocupam por outro motivo, nada secundário: o seu discurso manifesta abertamente a chegada, aos poucos porém  consistente, de certos thinks tanks trasnacionais, com capacidade para estruturar, precisamente, as agendas políticas dos países. Neste sentido, Jair Bolsonaro é, além de um  reacionário despreparado para o posto, um elemento estrutural para a geopolítica contemporânea.

Jair Bolsonaro e o Instituto Millenium

Dentre as várias leituras possíveis dos  resultados do primeiro turno em  7 de outubro, também de deve tomar nota do seguinte dado: dentro do grupo dos  que tiveram  um protagonismo ativo no impeachment a Dilma Rousseff, os referentes mais característicos da classe política tradicional –como Eunício Oliveira, Magno Malta ou Romero Jucá, com décadas de permanência- e partidos como o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ou o  Partido da Socialdemocracia Brasileira (PSDB), experimentaram um duro golpe. Não os escolheram, perderam  governações  e, de modo geral, ficaram  deslocados do  centro político que ocuparam nos  últimos anos.

Porém,  isto não significa que a eleição  tenha virado  as costas ao golpe  de Michel Temer e companhia, mas bem o contrário: os escolhidos -e houve uma renovação parlamentar maior a nível federal e estadual se compararmos com eleições anteriores – os escolhidos reivindicaram o  impeachment a Dilma Rousseff. Aliás o fizeram desde una perspectiva singular, que compartem com Bolsonaro.

O  elemento em comum deste (novo) grupo que começa a ocupar uma boa porção da  cena política do país -integrado, entre outros, por Janaina Paschoal (uma das redatoras do pedido de juízo político), o líder do Movimento Brasil Livre (MBL) Kim Kataguiri, o  youtuber Arthur Do Val ou o ex-senador e agora governador eleito (e latifundiário denunciado por trabalho escravo) Ronaldo Caiado, entre tantos outros- é que incorporam a seus discursos políticos a necessidade de uma ‘re-fundação nacional’ como condição e resultante de uma expansão imediata dos princípios do ‘livre mercado’. Esta linha das interpretações circulantes, amplificada pelos mediadores socioculturais que lhe servem  como difusão  (como boa parte destes novos ingressantes ao sistema político) e este é outro dos  elementos que determinam esta eleição.

Compatível com a reivindicação  da ditadura que o candidato defende, ou seu curioso entendimento daquilo que são as maiorias e as minorias em uma  sociedade, este discurso ‘ultra neoliberal -ou ‘libertário’, para ser mais precisos- foi evidenciando-se com maior claridade no transcurso da campanha para o segundo turno ou ballotage .

A respeito desta questão é que deve-se compreender a presença de  Paulo Guedes, o guru econômico de Jair Bolsonaro e potencial ministro de Economia, fundador de Instituto Millenium, um dos maiores reconhecidos think tanks ultra neoliberais no  pais. Trata-se  de um Instituto que, muito além de promover Fórum da Liberdade, esses encontros onde as elites econômicas vão reconhecendo aos seus próximos políticos afins e se divulgam as bondades do ‘livre mercado’, também articulou, mediante as ações  desdobradas de Atlas Network no Brasil, o ‘empoderamento’ de diversos grupos vinculados a Students for Liberty, de presença gravitante na construção do clima de destituição prévio ao juízo político a Dilma Rousseff, e núcleos duros do discurso anti Partido dos Trabalhadores (PT) durante estes últimos anos.

O Instituto Millenium, criado por Paulo Guedes, de espiritualidade internacional e atuação local, contribuiu de maneira sustida para essa infiltração ideológica gradual a respeito do que é aquilo que deve entender-se por uma genuína sociedade (de mercado) e quais parâmetros devem ser os relevantes num regime democrático. Um trabalho corrosivo sobre as idéias circulantes e nada inocente (sobre tudo se observarmos quem são aqueles que financiam a  Atlas Network), que obriga a uma consideração em torno do ‘fenômeno Bolsonaro’ desde uma chave mais geopolítica: trás a desestruturação dos principais atores econômicos do ciclo do PT no Governo –holdings de proteína animal, construtoras civis e Petrobrás, entre os de maior destaque-, e com um ciclo de acumulação capitalista ainda em um  impasse, Paulo Guedes (e a  hegemonia de idéias construídas nos ‘novos políticos’) é a garantia de que não haverá ‘interesse nacional’ que coloque freios para os ‘interesses estrangeiros’. Nesse sentido, as interpretações do país que querem-se  instalar agora desde o Poder Executivo (mesmo que ainda falte o segundo turno) não permitiriam sob nenhuma circunstância, por exemplo, nem o marco  regulatório para a produção do petróleo de águas fundas (Pre-Sal), nem os  vínculos e coordenações no  marco das BRISC’S.

De forma molecular, esta visão ultra neoliberal foi ganhando espaço: organizada desde o Poder Legislativo – dai nasceu o golpe a Dilma Rousseff-, re-configurada ao interior do Poder Judicial, agora vai pelo Executivo. Um  Poder Executivo que, como vem acontecendo nestes  meses, vem coincidindo com um protagonismo militar inaudito.

 

  • Doctor en Ciencias Sociales por la Universidad de Buenos Aires.

 

Fuente : http://motoreconomico.com.ar/opinion/los-think-tanks-y-jair-bolsonaro-capitalismo-y-representacin