Quando soa o rio

 

Por Jorge Giles ·

 

Dizer que o  mundo, a região e o  país estão rangendo é quase uma obviedade. Mas deve ser dito igual. Nós pomos a agenda; nosso estado de ânimo também.

É uma obviedade a inevitável a implosão inevitável da gestão atual pela decomposição de um governo isolado socialmente, dependente economicamente do FMI e dos EUA e em  aberta e grosseira disputa interna entre seus componentes mais notórios.

Range a  Corte Suprema. Range a  Aliança Cambiemos. Range a velha política. Range a não nascida  terceira via. Range tudo o   amarelo. Deve ser dito.

Dizer que os poderosos têm blindado até as  cuecas na espera que se acenda um foguinho que,  em cima ou  embaixo, faça estalar tudo pelo ar,  também é uma obviedade. Os pobres e os descalços já tomaram nota e se organizam e se cuidam entre eles. Mas  não desistem. Deve ser dito.

 

Como é outra obviedade que a direita conservadora e voraz segue puxando por cumprir com o roteiro escrito desde o norte para poder desandar os anos mais felizes dos povos da Pátria Grande: apressar aos líderes populares; demonizar a política demonizando a experiência populista trás o nome da “pesada herança”; reprimir todo o conflito social que resista às políticas de fome e pilhagem e por último, se chegam à instância final, tentar que a realidade quotidiana que vivemos e  sofremos nos transforme mais cedo que tarde, em um país de zumbis que se acostumem  a viver assim.

 

O conseguirão? Dependerá de nós todos e de nós todas. Já sabemos qual é a  armadilha: os cruzados do sistema disfarçam de “anti-sistema” à “anti-política” porque sabem que a política é a melhor ferramenta com que contam os povos para transformar sua realidade.

 

O primeiro turno eleitoral no Brasil pareceria indicar que ai, pelo menos, estão conseguindo. Lula está preso; o PT demonizado, facadas e balaços para os que protestam; e prometem que o boi e a  soja crescerão melhor com a chuva azeda que cairá do cometa Bolsonaro. Uma tragédia caso aconteça.

 

Não obstante, e para as boas almas que se deprimem e entristecem rapidamente, haverá que recordar que o domingo 28 de outubro a democracia brasileira terá outra oportunidade para dar uma força contra a cria da ditadura e  com possibilidade crescentes de  transformar o primeiro resultado. Não é um mero exercício de otimismo histórico e sim, mais bem, a mais alta ponderação de aqueles que, sabendo em carne própria o difícil da empresa, materializam a virtude humana de lutar pelos seus direitos até o último hálito e até o  último minuto. Se você não acredita neles, não os incomode.

 

Com essa humanidade nos identificamos. Na vitória e na   derrota. Sempre.

Porém em nosso país, além da miséria crescente, também acontecem outras coisas por embaixo. E há que dizê-lo.

 

* Milagro Sala cumpre injustamente mil dias presa e não desiste.

 

* A multidão de mulheres congregadas no Encontro Nacional que se realiza em Chubut. Todas se identificam anti-macristas.

 

* A  marcha popular que se gesta para 20 de Outubro a Luján convocada pelo movimento trabalhista e organizações sociais e políticas opositoras ao governo.

 

* A marcha do próximo dia 24 para o   Congresso para exigir aos legisladores a rejeição total do  orçamento  do medo, escrito pelo FMI.

 

* A resistência massiva ao pretendida pilhagem direta aos usuários de gás ou , a pilhagem das arcas do Estado, para compensar a defasagem econômica das Empresas como efeitos da mega-devaluação.

 

* As greves docentes que se anunciaram.

 

* Os territórios das diferentes periferias organizadas por quadra para impedir o corte criminal e injusto do serviço elétrico, do gás e da água.

 

* A greve nacional programada  pela CGT e as  CTA para novembro.

 

* Os avanços na elaboração, instalação e organização de uma idéia superadora: a construção de um grande Frente Patriótico.

 

Ou seja, o rio soa por baixo. Apenas há que saber escutá-lo.

 

Compreender este momento de bisagra a nível planetário nos obriga a observar o ranger das placas tectônicas que avançam e retrocedem e avançam novamente, procurando nova configuração geopolítica. Tudo se move.

 

Detiveram-se vocês, por um momento, para informar-se dos avanços extraordinários que na ordem econômica estão sendo protagonizados pelos três gigantes não ocidentais: a China, a Rússia e  a Índia?

 

O mundo é multipolar outra vez e estes países, tão longínquos e tão próximos, obrigaram a fechar as fronteiras da Europa e dos EUA em uma clara manobra defensiva, revestida discursivamente como ofensiva. O tema dá para outras colunas. Só queremos apontar aqui que a disputa entre o Norte e o Sul está em  pleno apogeu.

 

Nesse mundo que range se localizam os  nossos próprios rangidos.

 

O político medíocre não se interessa destas coisas. Tem em sua cabeça uma lista eleitoral e só pensa nela noite e dia. São os líderes e os estadistas, como Cristina Fernández de Kirchner, quem apreciam e valorizam estes dados que gravitam sobre a realidade de maneira direta ou indireta mas, sem dúvidas, são dados decisivos para traçar as coordenadas do futuro imediato. E para medir bem os tempos.

 

O rio soa e quando soa o rio range a velha política palaciana e muitos jogadores pulam de um lugar para outro no tabuleiro; é que todos desejam ficar do lado da dama ganhadora. São dias decisivos. Apenas  há que saber participar do lado correto da vida.

 

Que assim seja.