Três eixos de intervenção norte-americana na região

Por Nicolás Sampedro ·

 

Há um tempo quem agora é senador por  Cambiemos, Esteban Bullrich, revelava numa conferência na Academia Nacional de Educação, que a estratégia para vencer a resistência era jogar 12 iniciativas de uma vez dado que (nesse caso os grêmios) se focaliza na defesa de um, enquanto que os 11 restantes avançam. e quando  percebemos que algumas de essas 11 já se implementaram, eles avançam com aquela que defendíamos inicialmente.

 

Esta dinâmica foi utilizada desde que chegou ao governo naquele  longínquo 2015. Não se lembrarão  nestas linhas a longa listagem de batalhas às que nos submeteram , seria tedioso, reiterativo e cansativo. Porém focaremos  em 3 eixos que são  gravitantes não apenas no  presente de nosso país como também que serão transcendentais e de resolução (favorável para o povo) mais do que muito complexas.

Previamente cabe mencionar, que são estes os eixos  com os que  historicamente o império norte-americano mexeu na região. Fazendo um repasso breve pela  historia do continente poderemos observar  que é moeda corrente na grande maioria dos países da Nossa América: A luta contra a corrupção, a luta contra o narcotráfico e o l terrorismo, e a submissão

às dívidas externas.

Estes 3 eixos de intervenção norte-americana na região, hoje se potenciam pela  disputa global que exerce E.U.A. e os seus  aliados, contra o bloco conformado fundamentalmente pela Rússia, a China e Irão.

O COMERCIO, AS FINANCAS E A DÍVIDA

Uma das políticas de grosso calibre que se implementam na Argentina é, sem lugar a dúvidas, o endividamento  do  país. Seja com credores privados , seja com o  Fundo Monetário Internacional, o incremento desmesurado da dívida externa argentina não responde a erros políticos do governo de Macri, e sim a um planejamento  sistemático de múltiplos efeitos que, entre tantos outros aspectos, procura colocar de joelhos ao nosso pais .

Segundo os últimos dados publicados pelo INDEC dão conta que a fim  de junho deste ano, a dívida externa Argentina superou os 260 milhões de dólares e estima-se que para final de 2018, poderia atingir o descomunal número de 315 milhões, o que  representaria um 87% do Produto Interno Bruto do país. Os números para janeiro parecem ser   superiores a 100% do PIB.

O congelamento da economia interna, a enorme inflação, as sistemáticas desvalorizações do peso, a bicicleta financeira, os juros siderais dos  diferentes obrigações  emitidas, entre uma longa fila de etcéteras, tem entre outros, alguns efeitos devastadores: a redução dos salários, o  incremento abismal da rentabilidade das empresas amigas (próprias, nacionais ou multinacionais), a fuga de capital para o  exterior e o estreitamento do  Estado.

Em termos prospectivos isto gerará a curto-e médio prazo que as possibilidades de que o governo que suceda a Macri, possa reverter esta situação sejam cada vez mais complexas, não apenas pelas dificuldades na discussão interna (em base nas construções simbólicas que convivem no nosso povo), como também pelo  contexto cada vez mais belicoso que se vive no mundo.

A Argentina (igual do que o Brasil) é uma peca chave na  disputa dos E.U.A. conta a  China. Esta última, ao menos nas últimas quatro décadas atingiu um   crescimento considerável em quanto a níveis de comercialização com países de  Nossa América.

Neste  marco de alinhamento e vulnerabilidade estrutural,   o que acontecerá se  a Arábia Saudita cumpre as suas ameaças e gera que o valor do petróleo cru  se dispare? Como influirá para nós que a Rússia tire o dólar da sua  economia? O que acontecerá caso  Bolsonaro cumpra com a sua promessa  de apagar do  mapa ao Mercosul? e que acontecerá se a  China gerar um sismo  econômico quando  vender massivamente os obrigações de dívida do tesouro dos  E.U.A.? Seguramente as conseqüências para a Argentina seriam  inimagináveis…

BASES MILITARES E DE AJUDA  HUMANITÁRIA

A administração  de Mauricio Macri tem assinado acordos de cooperação  militar com Obama, Trump e Netanyahu. Com os 2 primeiros em matéria de cooperação  militar na luta  contra o narcotráfico e o  terrorismo, e com o  sionista, entre outras coisas, na  compra de armamento para repressão interna e elemento de cyber-seguridade e espionagem.

Em um artigo  de Paula Giménez e Matías Caciabue do  Centro Latino-americano de Análises Estratégico, detalha-se  que “Macri e Obama assinaram acordos de assistência na  Triple Fronteira; missões militares na África; asilo para os  sírios que fogem dos bombardeios; centros de fusão de Inteligência, defesa hemisférica, forcas de  seguridade no Comando Sul; cooperação nuclear e abertura comercial irrestrita”, além de  oficializar-se a incorporação da Argentina como sócio “extra oficial” à Organização  do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Em tanto que com  Donald Trump, “assinaram uma  declaração  conjunta de cooperação em matéria de política cibernética, assim com um  compromisso para combater o narcotráfico, lavagem de dinheiro , o   financiamento do terrorismo e a corrupção, além de um  consenso sobre a preocupação  de ambos governos pela “grave situação” da Venezuela.”

E.U.A. já começou com a instalação de entre  3 e 4 bases militares e/ou de ajuda humanitária em nosso país: Em Misiones (onde está o Aqüífero Guarani), em Jujuy (onde se encontram as  maiores reservas de lítio do mundo), em Neuquén (vizinho de  Vaca Muerta) e em  Tierra del Fuego.

Segundo Elsa Bruzzone, especialista em geopolítica, estratégia e defesa nacional, secretária do Centro de Militares para a Democracia Argentina (Cemida), esta política de entrega gerou certa incomodo no  interior das Forças Armadas, que veriam a esta política como a entrega deliberada da soberania nacional a uma potencia estrangeira.

Bruzzone afirma que o governo de Macri delegou a defesa  nacional ao Comando Sul dos E.U.A. Não é por acaso a compra de armamentos de guerra é  obsoleta, não se financia a produção  de equipes para as forças, ou participarão  na  seguridade interior. De um lado se produz a conversão  paulatina a elementos de seguridade interior e de outro se debilita a capacidade de resposta argentina ante conflitos com outros países.

Em matéria de cyber-seguridade os acordos foram assinados com o  Estado Sionista de Israel, que possui hoje mais de  300 empresas dedicadas a este rubro e que representa o maior produtor global com mais de um 10% de comércio deste tipo.

Cabe lembrar que “o presidente do Conselho Nacional de Investigação e Desenvolvimento  de Israel, Isaac Ben Israel, esteve em Buenos Aires de 3 a 6 de julho de 2018. Neste  período, manteve acordos com  autoridades nacionais e diferentes organismos de investigação científica e de seguridade. Desempenha-se , além disto, como presidente da Agencia Espacial de Israel e como diretor do Centro de Estúdios de Ciber-seguridade da  Universidade de Tel Aviv.

A resultante indicaria que para Cambiemos deve-se efetuar  um controle da população  nas redes e nas ruas, e um  (des)controle da  defesa, a seguridade e o roubo dos nosso bens comuns, entregados aos E.U.A. e aos seus  aliados, e às multinacionais extrativas.

Estamos numa guerra  multidimensional de novo tipo na qual  nunca pedimos ingressar. A  cumplicidade mediática, judicial e de setores do poder político tem seu preço e a população esta  está marginada totalmente desta discussão. As conseqüências que terá, vão gerar efeitos  prejudiciais para o  nosso povo, que se tornarão visíveis  quando, talvez, seja tarde demais para  demasiado tarde para reverter.

O LAWFARE

Por último, se bem que ninguém poderia concordar  com que exista a corrupção, porque isto representa um roubo descarado aos nossos povos, a utilização da “luta contra a corrupção ” é um dos pilares fundamentais na resultante atual. Os meios de comunicação estigmatizam a  líderes opositores ou referentes políticos e/ou sindicais, ao tempo  que a corporação judicial opera em função de  proscrever, sem importar o más mínimo qual é a  verdade dos fatos: o importante é que “não regressem os  populismos”.

e fica claro o porquê os E.U.A. não deseja que na Nossa América floresçam os progressistas. Perderiam a sua   influencia na região, o que  dificultaria ainda mais sua  já complicada  hegemonia global. Dai as  permanentes agressões à  Venezuela e à Bolívia, e a perseguição  a Lula, Dilma, Correa e Cristina.

Só um dado resta para complementar esta idéia. Nos  anos 70 os norte-americanos formaram na Escola das Américas aos militares que posteriormente foram os responsáveis de cruentas  ditaduras militares. Hoje formam juízes e procuradores, e compram o silencio e as denuncias permanentes  operadores mediáticos e políticos de diversa reputação

Claro está que o cenário que vier não será simples ante este panorama. As divisões internas,a complexa hostilidade regional e a  bestialidade de um império em decadência são elementos que tornam ainda mais difícil a saída.

Será chave para os povos da  Nossa América o que aconteça nas eleições do Brasil. Seu resultado colaborará ou levará para pior as condições dos processos populares na região, segundo a  sorte que corra o PT e seus aliados na batalha eleitoral que se avizinha. O que a gente poderá compreender que deve ficar claro para os nossos povos (e dirigentes) é que uma vez que se tenha o controle novamente do  Estado, não se pode ser  tão benevolente como aconteceu no  passado recente. As  conseqüências estão na mesa,   à vista de todos.